sexta-feira, 31 de julho de 2009

GATUNO


"Choramos ao nascer
porque chegamos a este imenso
cenário de dementes." (Shakespeare)


Era noite de calor. Ou seja, da janela poderia ventar boas vibrações. Maresia. Poderia até sonhar com galanteios, flores e bombons. Contudo, ocorreu-lhe algo inesperado: seu chapéu preferido fora roubado. Teria sido provocação? Ou o gatuno inoportuno seria tão pobre que estaria extremamente necessitado de um modelito daquele? Achou até que era um homem alto e negro, não sabia ao certo. Lá pelas quatro da manhã, talvez. Sempre ficava dormindo pesado. É claro que estava revoltada. Um pequeno ato desses revela muitas coisas. Porque teria o invasor feito isso? Vamos levantar as seguintes hipóteses mais básicas:

a) Ele não tinha chapéu de feltro daquela cor, era um colecionador de raridades;

b) Aquele moço desconhecido e de uns dois metros de altura devia estar com inveja daquela cabeça inventiva;

c) Não gostava muito de seus escritos provocativos;

d) A confundira com uma evangélica, que estava sendo procurada por vários crimes;

e) Quisera dar algum aviso;

f) Ela não desistiria jamais de ceder seu curriculum, conforme já revelara anteriormente, por isso ele quis mostrar que foi lá: aplicou-lhe até creme de menta insuspeitável em região que não me convém revelar;

g) Só queria perturbar e provocar um ímpeto criativo na vítima;

h) Mandaram-lhe em outra casa aplicar o teste; ele invadiu a casa errada;

i) Trata-se de um golpe que ainda não chegou ao fim, o sumiço do chapéu é apenas um signo de algo muito pior;

j) Existe algo de inominado, de vazio nisso tudo: o chapéu lhe traria um sentido para sua existência materialista: era para contemplação;

k) Ele não conseguia escrever nem criar nada, colocou-se o chapéu para ver se uma luz se acendia em sua alma: porque aquele modelo parecia o do prof. Pardal;

l) O chapéu brilhava no escuro: não resistiu, era um cleptomaníaco;

m) Achou que o chapéu ficaria bem na cabeça loura da sua namorada baixinha: eles iam para a praia naquele dia;

No fim não se sabe, são apenas hipóteses que têm a função de apaziguar sua alma revoltada e desejosa de justiça. Aguarda a devolução do mesmo. Está indignada. E também precisa que lhe retirem o malefício que lhe fora colocado. A dor apenas lhe aumenta a sede de justiça. Ontem mesmo. Pela justiça ela lutará sempre: seu caminho de vida é seu porque foi ela que o construiu como um muro de tijolos.

A estrada do conhecimento nunca tem fim e seu fim é sempre o infinito.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Portais da Sabedoria

"Quod est inferius est sicut quod est superius,

et quod est superius est sicut quod est inferius,

ad perpetranda miracula rei unius."

(Tábua de Esmeralda)


Caminhava com dificuldades, mas viera contar:

Tratou-se de um convite. Diante da hecatombe era inevitável que fosse feita uma convocação extraordinária. Tragédias sucessivas aconteciam ao mesmo tempo. Suicídios inevitáveis eram enviados pela bestialidade humana. Desejo de poder, de posses e de prestígio. A intervenção divina era necessária. Fora chamada pelos Sete Senhores que governam a humanidade. Faria algo impossível em que muitos haviam naufragado. O Sumo Sacerdote lhe apoiaria também.

Era tudo o que mais gostava: um desafio. Unia para isso Conhecimento, Sabedoria, Força, Intuição e talentos inconscientes e o que é melhor: insuspeitos. Ninguém dava nada por ela. Também tinha uma coragem de leão. É claro que não iria sozinha: altas viagens necessitam de altos apoios...

Durante a Missão, viajou e deu muitas voltas. Seus inimigos não a alcançaram. Lutava e dançava. Quando não; entoava cânticos antigos que eram recuperados pela memória ancestral; mantras sagrados; era de muitas línguas e várias nações. Outrora fora espadachim da China, dançarina de Odissi, praticara Tai-Chi, admirara a pajelança amazônica, conjugava ainda o Candomblé da nação Ketu, os Salmos e provérbios, a moralidade judaica, a leveza budista, a Cabalah, o ritual católico da missa, o Rosacrucianismo - não importava: isso tudo vinha de uma única Fonte Original. Não discriminava nenhuma religião nem filosofia, mas não gostava de proselitismos nem de desrespeitos.

Enquanto isso, seus oponentes não tinham limites. Clones queriam aparentar-se a ela. A garota que, no sonho, conseguira voar tão alto quanto ela gostaria de limpar seu passado negro. Com isso se livraria da prisão já anunciada e com várias batidas de martelo daqui e de alhures. Fez de tudo para que a Guardiã ocupasse o seu lugar. Seus cúmplices também colaboravam para que o mal que ela plantava sobre a Terra se difundisse: abriam crateras na atmosfera e frestas absurdas que nos levariam ao Fim precocemente. Abusavam do roubo de um segredo.

Quem era contra a corrupção era torturado (daquele jeito que já mencionamos anteriormente). E esse mal ainda continuava. Seis meses já era muito para um julgamento desumano e absurdo, com práticas ditatoriais. E nenhuma conclusão: no tribunal faziam sempre as mesmas perguntas. Talvez estivessem enfeitiçados...

Quiseram caluniá-la, difamá-la, destruí-la, satanizaram sua imagem; mas ninguém ocupa o lugar de ninguém, ainda mais quando não há vocação para que, por exemplo, uma pessoa que vibra em outra frequência, decaía até à altura dos vermes.

(Há sempre diferentes níveis de evolução e a dança cósmica da evolução assim se realiza).

Ora, a mesma serpente que pica e envenena pode nos proporcionar a cura. Tudo tem suas faces. Não alteremos o equilíbrio ecológico. Não sabia se era válido exterminar serpentes...quem comeria os ratos?

Então tais vermes se deliciavam proporcionando torturas inimagináveis às pessoas honestas daquela aldeia. Estavam alterando o Equilíbrio, e tal era proibido. Seriam rechaçados. Nem sabe se triunfou na missão.


Ventos responderiam por ela. Gritou. Esperava novamente pelo Socorro. Fora atacada enquanto repousava tranquilamente sob uma árvore. Fazia tarde fresca e agradável. Colocaram-lhe uma espécie de anel que lhe causava desconforto. Deve ter sido reação à realização da Missão. Exus revoltados. Deviam se conformar: em território sagrado só entra quem for geômetra. Teriam que aceitar a Lei do Hermetismo, que estava sendo esquecida. Não podiam passar: isso era tudo. Estavam bloqueados porque não comungavam dos mesmos valores, nem consideravam nada como sagrado. Queria o desencanto, a desesperança e o desalento.
Eram as pedras pretas do tabuleiro...

Nada mais posso contar. Faz noite alta na aldeia. Je m'en vais.




quinta-feira, 23 de julho de 2009

Fraternidade


"Em primeiro lugar, o amor-próprio." (Simone de Beauvoir) 




Amizades iam e vinham. Éramos atraídos uns pelos outros pelo próprio espírito; a matéria era o que menos contava, embora inevitavelmente fôssemos parecidos. Tínhamos interesses semelhantes, e era sempre alguém defendendo essa ou aquela tese; este ou aquele teórico. Mesmo nossos inimigos eram inteligentes e afiavam nossas espadas quando nos envolvíamos em debates, então tornavam-se apenas oponentes momentâneos; possuir inimigos era coisa de espíritos retrógrados. Alianças temporárias eram possíveis: no Brasil tudo é relativo.
(Fui salva outro dia por um mendigo. Antes disso não sabia nada sobre negócio de estuporar...)
Uns não sabiam jogar com a arte da conversação. Outros não tinham a firmeza necessária e iam para o combate aflitos. Mas não era preciso ter medo: o abismo era ilusão. A onda gigantesca à entrada do santuário também era ilusão. Bastaria que a pessoa desse um passo a frente e começaria a rir-se pois o asfalto novamente surgiria. Vencer a ilusão era um desafio, mas que deixaria a todos contentes. Fora-lhes até sugerido que se abraçassem, num fraternal "Dia do abraço". Mas nem todos aceitavam: queriam a eterna juventude, isto é, o encantamento; tocarem-se seria um sacrilégio, pois isso lhes quebraria a face.
(Ora, para espíritos envelhecidos um só creme não é o bastante).
Que atravessassem a rua. Nada lhes aconteceria.
Há pessoas que não aceitam o jogo da oposição. Conseguem se tornar intragáveis com o passar do tempo...mesmo assim exercitávamos a tolerância em alguns casos. Sentarem-se na mesma mesa às vezes era complicado para alguns grupos que não concordavam com pontos fundamentais.



"Não convide esse"


"convide aquele"


"Essa aqui tem relações impróprias... "


"Se chamarem esse tal negócio não vai dar certo..."


Há pessoas que simplesmente não comungam dos mesmos valores e inevitavelmente são excluídas das rodas. O afastamento às vezes não tem motivo algum e segue os misteriosos caminhos da intuição.
(Ou da política):


"Essa garota cheira mal"
"Essa menina aí agora está na condição de fantasma!"


Somos todos preconceituosos no final. Mas quando amamos é de verdade.


Com Raimunda foi assim. Caminhava sempre corretamente fazendo movimentos marciais achando que tudo fazia sentido e que já sabia de tudo porque tinha lido tudo sobre Machado de Assis. Recusava debates e tinha respostas na ponta da língua. Mas aquele Alienista sempre lhe surtava. Porque uma coisa sempre se transformava em outra e aquilo lhe era misterioso para seu mundo organizado. Mas sempre achava explicações definitivas e se empenhava na construção de um manual. Trabalharia correto na educação. Era pedafofa, digo pedagoga.
Até que um dia, chegada quase ao cume da montanha, lhe disseram que ela não era ela mesma; era outra. Pensou até que aquilo fosse brincadeira, mas fora convidada a se retirar porque não subvertia. Fora-lhe sugerido que ocupasse outra cadeira porque aquela seria agora sua verdadeira identidade. E, assim, tal como uma hipnose, acreditara piamente que era outra. Sendo outra teria amizades outras. Outros desafios. Se empolgara até, palestrara, usara datashows, encenara perfis: ela era outra. Conversara com seus antigos conhecidos e lhes convencera de que tudo mudava: tinham que ler mais. Além disso, seu grupo tudo podia. Não havia limites para a ocupação. Conquistara novos amigos e novas relações. Tudo perfeito (nas aparências). Os dias se seguiram. A roda girara. Mas chegada numa grande curva, numa distração, num desatino, durante uma piada, o Alienista lhe caíra dentre as mãos e o verde tornou-se vermelho. Os loucos agora eram certos. Os certos eram loucos. Era hora de mudar e então partira obrigatoriamente. Fora-lhe ofertada uma fuga. Mas das amizades, só restaram estilhaços: sabiam que nem tudo que reluzia ouro lhes parecia.



Já com Ana foi diferente. Ela era a outra que a outra ocupara-lhe. É verdade que ficou sozinha, teve crises várias: de choro, de pesadelos, de saúde, mas já tinha sido considerada normal e pacata em algum dia. Esvaziara toda sua página porque lhe disseram que ela teria que recomeçar. Disseram-lhe que tinha errado. Seu estado de errância incomodava. Para ela era apenas aprendizado. Seu caminho de vida doce lhe parecia e se recusava a abandoná-lo. Mas recusara o sem sentido porque o próprio caminho e a expressão eram seu sentido. Disse-lhes que "não" e terminantemente "não": porque já tinha onze páginas escritas no pergaminho. As ofertas para a compra de seu curriculum continuavam, e eram cada vez mais sombrias: caíra de quinhentos reais para cem; chegou até a pensar que seria melhor vender logo as onze páginas antes que elas significassem centavos...
(Isso aí ela sonhou, mas quando acordou sua gata tinha reaparecido esquelética e faminta após dezesseis dias de sumiço!)
Então na história de vida de Ana bloquearam-lhe a comunicação porque a outra já lhe encenava com perfeição. E ela gostava de sandálias de dedo e a outra não. Não tinha exatamente em sua vida algo que seguisse religiosamente. Talvez somente sua própria vida acadêmica. Gostava das terapias todas: das alternativas. Mas nada de radicalismos, sua geração procurava relativizar. Adorava analisar porque isso eram traços de sua espécie, coisa de cientistas. Daí que, em sua trajetória, ser ela mesma tornou-se um problema para aqueles outros que foram revelados anteriormente. Mas insistia. Lutava. Preferia a guerra ao ostracismo. Pedira Socorro, daqueles mudos e ancestrais e agora somente aguardava. Sua história não estava terminada.
Tinha amigos em toda parte naquele labirinto, e esses se pressentiam e alguns nem precisavam de apresentação.
Quando fazemos signos secretos eles olham e vêem. Correm e acodem porque se comunicam pelos sentidos e se salvam a todo momento. De mãos dadas e sem correntes, caminham em um movimento internacional por tempos menos sórdidos.









quarta-feira, 22 de julho de 2009

DE CABELO EM PÉ!




"Não sou agricultor.
Desconheço a semente."
(Bezerra da Silva)

A política invasiva continuava: sentia-se grampeada, como se uma formiga lhe fosse colocada nas entranhas. Ela pulsava em suas entradas, depois subia; tinha-se a impressão de que passeava e depois caía. Tinha-se também a impressão de que ela ia num crescendo, crescENDO, CRESCENDO...CRESCENDO. Efeito de balão. O balão inchava. Até parecia que iria explodir. Quando chegava ao máximo desse inchaço, o "balão" começava a se esvaziar.
(Era ilusão. Estava louca. Rasgava dinheiro. Recusava propostas obscenas...).
Ficava com ódio, pois mal conseguia andar. O "troço" pulsava e incomodava. O efeito psicológico disso era devastador: destruía toda sua confiança na humanidade.
Queria expulsar "a coisa" e ia repetidamente ao banheiro. Tinha vontade de gritar. Ficava nervosa. Tornava a dizer que não autorizava nenhuma experiência científica em seu corpo.
(Se era por isso o terrorismo)
Naquela noite, o moreno que resolvera lhe conhecer aparecera com um súdito. Esse lhe tratava com toda parcimônia. Já vira esse homem uma vez, lhe seguindo na rua. Morava em Campinas. Estava deprimida naquela época e saía do médico. Era sujeito corpulento, forte, parecia ser alto, cabeludo; sem preconceitos, desculpe: mas tenho que dizer que ele parecia um árabe. Não o conhecia. Alguma autoridade ele deveria ter para ser tratado como se fosse o rei do Universo (ou o Rei das sementes...)
Confidenciou para o escravo que essa não era a sua mulher desaparecida. A preferida. A que ele contemplava naquele momento era gorda.
Depois dessa misteriosa visita, a "formiga" lhe havia sido aplicada. Que lástima! No outro dia, o mal humor era inevitável.
Não suportava mais essa situação. Queria mais respeito pelo seu corpo. Nunca tivera graves problemas de saúde e agora corria o risco até de ficar estéril por conta do capricho de seres desconhecidos e das inúmeras invasões em sua casa.
Nessa mesma noite, sentiu o perigo rondando. Nem queria dormir. Assistiu ao início do Programa do Jô. Resistiu ao chamado do sono o quanto pode. Mas era impossível ficar por muito tempo vigilante. Se essa visita se tornou mais um pesadelo evanescente mais tarde, nunca se sabe com certeza. Ficou como lembrança a péssima sensação de que havia sido grampeada.
Além disso, seus cabelos também sofreram vários atentados: que pessoa má seria essa que desejava destruir seus cabelos cacheados e naturais? Era simplesmente o terceiro conjunto de shampoo e condicionador que eram sabotados nesse período! A sensação era a de que neles eram colocados amoníaco e/ou pimenta, não se sabe. Só poderia dizer sobre o terrível ardor que restava após a aplicação. Esse último shampoo não tinha problema algum, o usara por uns três dias. Então sabia que não era um problema da fórmula, nem era alérgica a nenhum componente. Depois da misteriosa sabotagem não se arriscaria a experimentá-los. Não queria ter que correr novamente até o tanque mais próximo para aliviar a sensação de ardor que ficava no couro cabeludo.
Tinha que ir embora, sem dúvida. Mas talvez fosse isso que seus algozes quisessem: desocupar o lugar; colocar um clone lá. Não poderia partir: faltava verba. Preocupava-se com a família. E não achava justo abandonar a sua cidade para esse tipo de gente.
Acreditava que melhor seria ficar e lutar para que os incomodados se mudassem. Ora, o Estado precisa de pessoas qualificadas. E Belém do Pará sempre foi lugar muito aprazível e cidade cheia de memórias, que lhe faziam feliz quando revisitadas.
Por outro lado, não gostaria de se tornar mais uma espécie de herói, uma celebridade que se tornaria conhecida pelo mundo, via imprensa, somente após o sacrifício final.
Enfim, eram tragicidades cotidianas, que nunca tinham provas concretas.
Sofria de sonhos recorrentes...

segunda-feira, 20 de julho de 2009

ÔNUS


"A realidade é um local muito bom de visitar.
Mas não é bom morar lá"
(Marshall Sahlins)



No meio da noite, dois mentecaptos trocam farpas entre si. Um deles, ironiza, afirma: "ela não é santa? Eu vou rezar..." Faz gesto. Tem sotaque de cidade do interior, talvez mineiro. O outro avisa que ela é filha de santo, "não se pode mexer com ela"
(Seria mesmo por isso que não se pode incomodá-la?)
Um outro, homem da Lei, infartado, não pode socorrer, está no hospital, tantas foram as pressões contrárias. Há de salvar-se, tem mérito e uma rede de amigos confiáveis. Talvez até já tenha evaporado de lá...
A conversa continua, animada, acham que ela já está para ser "desovada":
- Nessa aí, a gente não coloca mais nada!
- Mandaram colocar até tranca nas portas das casas, a gente não pode nem mais estuporar as mulheres!
- Ah, ela não queria dar!
- Não pode mais fazer NADA!
- Ela é muito bonita, eu queria pegar!
- Era pra colocar até ela confessar, mas ela não confessa!
- Vamo embora, ela tá pra acordar!
- A outra também pode acordar, ver e denunciar!
O homem a contempla desejoso. Ela olha e vê o gordo e o magro, mal-afeiçoados. Parece um pesadelo. Eles desaparecem. Vira para o lado e dorme novamente. No entanto, sente algo estranho no corpo, que pulsa.
Não sabe quando nem como termina a perseguição. Mas protesta: é uma negra da nação Ketu. Toma o café, come o pão, bebe o leite. Simplicidade. Sua garganta logo fecha e arde.
Nada demais: apenas rotina do terror. É. Cada um escolhe o seu Senhor.
Mistério...

sábado, 18 de julho de 2009

Zona de Perigo


"Páre. Isso é humano"
(
Pela mão de Alice,
Boaventura de Sousa Santos)


Naquele dia, seu espírito não encontrara sossego. Tinha a sensação de que a qualquer momento voaria, mas não podia: não era chegado o momento. Então foi ao lugar certo, nas últimas horas que lhe cabiam de vida. Um portal: cuidou-se e fora cuidada. Fora também raptada e salva no mesmo dia, inexplicavelmente. Nem sabe como isso se deu.
Um coração então, na boca da noite, bateu entre seus dedos. Livrou-se das maldições. Quando já havia partido, leve, a Senhora fora lhe buscar - nas estrelas - com ordens superiores. Afirmou que era hora de voltar, impreterivelmente, naquele minuto. Sussurrou em seus ouvidos a palavra mágica. Ela voltou a respirar e seu coração voltou a bater. Aterrisou em seu próprio corpo incólume que estava lá, estendido no chão sagrado.
Os dias se passaram e as noites. Informações confidenciais em relatórios internacionais nada relataram sobre o ocorrido; seu corpo recusava qualquer invasor e tudo era queimado. Era vista apenas como uma espécie de conjunto constituído de cabeça, corpo e membros, em que a espionagem não tinha limites, como satélites: curiosidade obscena, irritante.
A invasão de privacidade já não conhecia fronteiras. Tomara todos os limites sagrados do próprio corpo. Como se o sagrado estivesse contido na matéria e na matéria em si se dissolvesse. O homem é sim capaz de ir além do que é; escavando suas próprias possibilidades a partir do próprio umbigo. No entanto, toda porta tem seu porteiro e somos mais do que uma montanha de carne e de ossos.
Não devia haver nada lá fora. Mas há o infinito. E outra coisa além. E outra coisa ainda.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

ATOS SECRETOS



"Tudo isto que o terráqueo abismo encerraForma a complicação desse barulhoTravado entre o dragão do humano orgulhoE as forças inorgânicas da terra!"("As cismas do destino" de Augusto dos Anjos)

Declaro para o astral mudo que são postos para fora, e não devem passar pelo portal secreto , todo aquele que pratica a iniquidade: a mulher sem alma e sem curriculum, que, enlouquecida, surta, quebrando tudo. O homem cego, que lhe acredita como vítima. A traficante que seduz corrompendo espíritos fracos. O olho mau que olha feio, numa espécie de loucura. A idéia de enriquecimento ilícito. Os crimes de internet. A corrupção. A tortura. A inveja. O roubo de autoria. A formação de quadrilha. A bela feia a espalhar doença pela terra. O martírio do ventre. As violências simbólicas. O terrorismo - somente passam pelo portal aqueles iniciados de alta moralidade.
Difícil é encontrá-los.
Vivemos sob tempos difíceis e invertidos. Imersos e com poeira nos olhos. A justiça terrena nunca consegue um olhar pleno. Desejamos o impossível, pois o mundo será sempre cinza, como um tabuleiro de xadrez: preto e branco = cinza.
Eu tive um sonho: sem mistérios. O casal caminhava pesado. Ele, pelo próprio peso da gordura e pela sua corrupção. Ela, pelas escolhas deformadas que fez.
(Mas não discriminemos a obesidade. Há pessoas que tem muito amor por detrás do peso).
Porém, nesse sonho, o casal arrastava correntes, juntos. Apenas iam. Ela atrás dele. Caminhava tristemente. Avisada tinha sido. Queriam buscar outros, mas esses já haviam tentado a regeneração e não estavam mais no mesmo lugar vazio. O casal tinha ouvido o chamado e haviam atendido a ligação errada. Acreditavam realizar a justiça na terra, exterminavam e estavam enganados. Pois desrespeitavam tradições e não tinham consciência. Ele havia procurado o pântano por gosto; ela tinha sido escravizada. Ele a tinha perdido e depois reencontrado. Depois que a reencontrara dera-lhe palmadas porque acreditava que ela gostasse disso.
Agora os Atos realizados secretamente estavam sendo executados.
O Olho Tudo Vê e ninguém engana o Cósmico com retórica.
E a Sacerdotiza apenas aguarda.