quarta-feira, 22 de julho de 2009

DE CABELO EM PÉ!




"Não sou agricultor.
Desconheço a semente."
(Bezerra da Silva)

A política invasiva continuava: sentia-se grampeada, como se uma formiga lhe fosse colocada nas entranhas. Ela pulsava em suas entradas, depois subia; tinha-se a impressão de que passeava e depois caía. Tinha-se também a impressão de que ela ia num crescendo, crescENDO, CRESCENDO...CRESCENDO. Efeito de balão. O balão inchava. Até parecia que iria explodir. Quando chegava ao máximo desse inchaço, o "balão" começava a se esvaziar.
(Era ilusão. Estava louca. Rasgava dinheiro. Recusava propostas obscenas...).
Ficava com ódio, pois mal conseguia andar. O "troço" pulsava e incomodava. O efeito psicológico disso era devastador: destruía toda sua confiança na humanidade.
Queria expulsar "a coisa" e ia repetidamente ao banheiro. Tinha vontade de gritar. Ficava nervosa. Tornava a dizer que não autorizava nenhuma experiência científica em seu corpo.
(Se era por isso o terrorismo)
Naquela noite, o moreno que resolvera lhe conhecer aparecera com um súdito. Esse lhe tratava com toda parcimônia. Já vira esse homem uma vez, lhe seguindo na rua. Morava em Campinas. Estava deprimida naquela época e saía do médico. Era sujeito corpulento, forte, parecia ser alto, cabeludo; sem preconceitos, desculpe: mas tenho que dizer que ele parecia um árabe. Não o conhecia. Alguma autoridade ele deveria ter para ser tratado como se fosse o rei do Universo (ou o Rei das sementes...)
Confidenciou para o escravo que essa não era a sua mulher desaparecida. A preferida. A que ele contemplava naquele momento era gorda.
Depois dessa misteriosa visita, a "formiga" lhe havia sido aplicada. Que lástima! No outro dia, o mal humor era inevitável.
Não suportava mais essa situação. Queria mais respeito pelo seu corpo. Nunca tivera graves problemas de saúde e agora corria o risco até de ficar estéril por conta do capricho de seres desconhecidos e das inúmeras invasões em sua casa.
Nessa mesma noite, sentiu o perigo rondando. Nem queria dormir. Assistiu ao início do Programa do Jô. Resistiu ao chamado do sono o quanto pode. Mas era impossível ficar por muito tempo vigilante. Se essa visita se tornou mais um pesadelo evanescente mais tarde, nunca se sabe com certeza. Ficou como lembrança a péssima sensação de que havia sido grampeada.
Além disso, seus cabelos também sofreram vários atentados: que pessoa má seria essa que desejava destruir seus cabelos cacheados e naturais? Era simplesmente o terceiro conjunto de shampoo e condicionador que eram sabotados nesse período! A sensação era a de que neles eram colocados amoníaco e/ou pimenta, não se sabe. Só poderia dizer sobre o terrível ardor que restava após a aplicação. Esse último shampoo não tinha problema algum, o usara por uns três dias. Então sabia que não era um problema da fórmula, nem era alérgica a nenhum componente. Depois da misteriosa sabotagem não se arriscaria a experimentá-los. Não queria ter que correr novamente até o tanque mais próximo para aliviar a sensação de ardor que ficava no couro cabeludo.
Tinha que ir embora, sem dúvida. Mas talvez fosse isso que seus algozes quisessem: desocupar o lugar; colocar um clone lá. Não poderia partir: faltava verba. Preocupava-se com a família. E não achava justo abandonar a sua cidade para esse tipo de gente.
Acreditava que melhor seria ficar e lutar para que os incomodados se mudassem. Ora, o Estado precisa de pessoas qualificadas. E Belém do Pará sempre foi lugar muito aprazível e cidade cheia de memórias, que lhe faziam feliz quando revisitadas.
Por outro lado, não gostaria de se tornar mais uma espécie de herói, uma celebridade que se tornaria conhecida pelo mundo, via imprensa, somente após o sacrifício final.
Enfim, eram tragicidades cotidianas, que nunca tinham provas concretas.
Sofria de sonhos recorrentes...

segunda-feira, 20 de julho de 2009

ÔNUS


"A realidade é um local muito bom de visitar.
Mas não é bom morar lá"
(Marshall Sahlins)



No meio da noite, dois mentecaptos trocam farpas entre si. Um deles, ironiza, afirma: "ela não é santa? Eu vou rezar..." Faz gesto. Tem sotaque de cidade do interior, talvez mineiro. O outro avisa que ela é filha de santo, "não se pode mexer com ela"
(Seria mesmo por isso que não se pode incomodá-la?)
Um outro, homem da Lei, infartado, não pode socorrer, está no hospital, tantas foram as pressões contrárias. Há de salvar-se, tem mérito e uma rede de amigos confiáveis. Talvez até já tenha evaporado de lá...
A conversa continua, animada, acham que ela já está para ser "desovada":
- Nessa aí, a gente não coloca mais nada!
- Mandaram colocar até tranca nas portas das casas, a gente não pode nem mais estuporar as mulheres!
- Ah, ela não queria dar!
- Não pode mais fazer NADA!
- Ela é muito bonita, eu queria pegar!
- Era pra colocar até ela confessar, mas ela não confessa!
- Vamo embora, ela tá pra acordar!
- A outra também pode acordar, ver e denunciar!
O homem a contempla desejoso. Ela olha e vê o gordo e o magro, mal-afeiçoados. Parece um pesadelo. Eles desaparecem. Vira para o lado e dorme novamente. No entanto, sente algo estranho no corpo, que pulsa.
Não sabe quando nem como termina a perseguição. Mas protesta: é uma negra da nação Ketu. Toma o café, come o pão, bebe o leite. Simplicidade. Sua garganta logo fecha e arde.
Nada demais: apenas rotina do terror. É. Cada um escolhe o seu Senhor.
Mistério...

sábado, 18 de julho de 2009

Zona de Perigo


"Páre. Isso é humano"
(
Pela mão de Alice,
Boaventura de Sousa Santos)


Naquele dia, seu espírito não encontrara sossego. Tinha a sensação de que a qualquer momento voaria, mas não podia: não era chegado o momento. Então foi ao lugar certo, nas últimas horas que lhe cabiam de vida. Um portal: cuidou-se e fora cuidada. Fora também raptada e salva no mesmo dia, inexplicavelmente. Nem sabe como isso se deu.
Um coração então, na boca da noite, bateu entre seus dedos. Livrou-se das maldições. Quando já havia partido, leve, a Senhora fora lhe buscar - nas estrelas - com ordens superiores. Afirmou que era hora de voltar, impreterivelmente, naquele minuto. Sussurrou em seus ouvidos a palavra mágica. Ela voltou a respirar e seu coração voltou a bater. Aterrisou em seu próprio corpo incólume que estava lá, estendido no chão sagrado.
Os dias se passaram e as noites. Informações confidenciais em relatórios internacionais nada relataram sobre o ocorrido; seu corpo recusava qualquer invasor e tudo era queimado. Era vista apenas como uma espécie de conjunto constituído de cabeça, corpo e membros, em que a espionagem não tinha limites, como satélites: curiosidade obscena, irritante.
A invasão de privacidade já não conhecia fronteiras. Tomara todos os limites sagrados do próprio corpo. Como se o sagrado estivesse contido na matéria e na matéria em si se dissolvesse. O homem é sim capaz de ir além do que é; escavando suas próprias possibilidades a partir do próprio umbigo. No entanto, toda porta tem seu porteiro e somos mais do que uma montanha de carne e de ossos.
Não devia haver nada lá fora. Mas há o infinito. E outra coisa além. E outra coisa ainda.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

ATOS SECRETOS



"Tudo isto que o terráqueo abismo encerraForma a complicação desse barulhoTravado entre o dragão do humano orgulhoE as forças inorgânicas da terra!"("As cismas do destino" de Augusto dos Anjos)

Declaro para o astral mudo que são postos para fora, e não devem passar pelo portal secreto , todo aquele que pratica a iniquidade: a mulher sem alma e sem curriculum, que, enlouquecida, surta, quebrando tudo. O homem cego, que lhe acredita como vítima. A traficante que seduz corrompendo espíritos fracos. O olho mau que olha feio, numa espécie de loucura. A idéia de enriquecimento ilícito. Os crimes de internet. A corrupção. A tortura. A inveja. O roubo de autoria. A formação de quadrilha. A bela feia a espalhar doença pela terra. O martírio do ventre. As violências simbólicas. O terrorismo - somente passam pelo portal aqueles iniciados de alta moralidade.
Difícil é encontrá-los.
Vivemos sob tempos difíceis e invertidos. Imersos e com poeira nos olhos. A justiça terrena nunca consegue um olhar pleno. Desejamos o impossível, pois o mundo será sempre cinza, como um tabuleiro de xadrez: preto e branco = cinza.
Eu tive um sonho: sem mistérios. O casal caminhava pesado. Ele, pelo próprio peso da gordura e pela sua corrupção. Ela, pelas escolhas deformadas que fez.
(Mas não discriminemos a obesidade. Há pessoas que tem muito amor por detrás do peso).
Porém, nesse sonho, o casal arrastava correntes, juntos. Apenas iam. Ela atrás dele. Caminhava tristemente. Avisada tinha sido. Queriam buscar outros, mas esses já haviam tentado a regeneração e não estavam mais no mesmo lugar vazio. O casal tinha ouvido o chamado e haviam atendido a ligação errada. Acreditavam realizar a justiça na terra, exterminavam e estavam enganados. Pois desrespeitavam tradições e não tinham consciência. Ele havia procurado o pântano por gosto; ela tinha sido escravizada. Ele a tinha perdido e depois reencontrado. Depois que a reencontrara dera-lhe palmadas porque acreditava que ela gostasse disso.
Agora os Atos realizados secretamente estavam sendo executados.
O Olho Tudo Vê e ninguém engana o Cósmico com retórica.
E a Sacerdotiza apenas aguarda.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

INSÔNIA



"Deus é paciência."
(Guimarães Rosa)
Rostos cínicos acham graça de sua ousadia. Para eles, seria questão de horas que ela lhes revelasse uma pretensa máscara escondida.
Ledo engano. Não há nenhum esconderijo. Esconde-se sob a luz do Sol do meio-dia.
Esperarão em um ponto qualquer de uma cidade do interior, inutilmente, porque ela nunca marca encontros. A arapuca está armada. Não há saída: os insensatos devem fugir. São fracos e isso o vento leva. Bastava que nunca tivessem lhe imposto um bloqueio, (porque ela é do tipo que sempre reage a assaltos) e não teriam sofrido nenhum retorno. O futuro deles será em preto e branco com uma camisa listrada.
(É contra o suicídio, acha mais bonito o xadrez mesmo. Porque o xadrez sempre volta à moda)
Nem precisa revelar que a Lei existe. Isso é tão óbvio... E não aceita que "as leis existem para não serem cumpridas" - como ouvira, certa vez, de uma adolescente sem regras.
Aguardemos ouvindo o noticiário.
Sobre ontem: não dormiu. A irritação aumentou-lhe por conta do calor. Não teve socorro imediato. Por isso parou, sentou-se e pensou que logo alguém recuperaria toda sua memória e cumpriria com seus juramentos. Nunca perdia a esperança. E não havia nada de novo. Apenas esperava.
Percebia que havia rostos muito ambíguos, que refletiam a amargura de uma vida mal vivida. Outros desfaleciam no asfalto quente todas suas certezas: teriam que rever antigas posições. Efeito-borboleta dos desmascaramentos ocorridos. Confusão de identidades.
Era olhada às vezes de relance. A loucura envolvia sempre essas pessoas e andava à espreita planejando armadilhas. Era preciso estar sempre vigilante. Mas nem sempre conseguia.
Hoje mesmo faz muito verão na Amazônia. A temperatura lhe dá uma certa sensação de desabrigo. Há um certo mal-estar. Mas luta, contudo - com todas suas convicções sem preço. Atenta, percebe não mais precisar revelar a mesma ocorrência: aquela mesma espécie de incômoda formiga colocada. Teria sido uma cigarra?
Talvez amanhã isso tudo se transforme. E, com sorte, sorria.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Política da mediocridade



"Há duas coisas a desejar da vida:

primeiro, conseguir o que você quer

e depois usufruir o que você tem.

Só os muito espertos conseguem a segunda. "



(L.P.Smith)



Acordou santa. Porque outra coisa não podia: tinham-lhe grampeado a vagina, para ver se talvez, cometeria alguma espécie de desatino. Quem sabe ela ligasse para alguém, vá saber - rastreariam. Antigamente se grampeavam telefones, hoje em dia, em tempos tecnológicos, se grampeiam as partes íntimas e se coloca GPS nas nádegas. Controle sufocante. Algum corno com trauma, talvez. Ou agentes secretos mal-informados. Ou isso ou aquilo, não sabia quem perseguia, afinal.


Diziam-se policiais, que investidos de plenos poderes, achavam-se no direito de entrar na casa de pobres cidadãos. As vezes iam armados para que os proprietários - acuados - abrissem a porta sem qualquer resmungo. Queriam falar com a "suspeita". Esta não sabia quem era quem. Suspeita de quê? E não é policial aquele que cuida da segurança do cidadão? E bandido é aquele que rouba e mata? Confusões conceituais.




Era sempre procurada por esses desconhecidos que, como argumento para a invasão, utilizavam-se de várias estratégias. Uma delas: de posse de certidões falsas de casamento, exigiam direitos de marido diante de um pai estupefato: "eu vim para fazer sexo..." Teria sua filha casado em segredo quando estivera longe? Confundiam sua mente. Sua filha era solteira e nunca tinha se casado, nem mesmo morado junto! "Também não era mulher da vida!" Era mais do que difícil. Mas ficava balançado de dúvidas. Sempre fora desconfiado.




Na verdade, o que faziam era testar (e destruir) a confiança entre os grupos e plantar a discórdia entre parentes e amigos. Inclusive muitos amigos haviam se separado por conta dessa "politicagem". Era preciso que se amassem de verdade e se conhecessem profundamente para vencerem tais artimanhas. E que, também, carecessem de ambições materiais. As pessoas se afastavam também com medo dessa guerra.




E que bizarro: eram vários maridos!




De madrugada, ao seu pé da cama, sempre lhe aparecia algum que lhe contava histórias absurdas, enquanto ela queria gritar e não conseguia, pois sempre dormia profundamente. Mas sabe que sonhou que reagia. Com socos e pontapés. Passou a xingar também.




Uma vez um deles fora lhe visitar. Não sabe como ele entrara. Dissera-lhe que ela já tinha dois filhos com ele, os dois moravam numa cidade do interior do Pará. O tal do homem com sotaque do interior não compreendia porque havia sido abandonado com duas crianças para criar. Enquanto que ela (não sei contar sua descrição, mas diziam que tinha pernas finas) fugira para São Paulo para dar um golpe em uma quase homônima.




Naqueles dias passados, nem pensara duas vezes: entre ficar com um marido que lhe batia e lutar para assumir o lugar de uma solitária doutoranda, optara pelo segundo lugar. (Mesmo que sequer tivesse qualificação para isso). Achou que seria fácil. Não podia imaginar que uma mulher que conquista o que quer - obviamente - tem apoio e forças para isso.




Dizem que a fugitiva golpista morrera atropelada. Nem sei dizer, é tudo hipótese. Ouvi falar.




Outro pretenso "marido" disse-lhe que ela era um "peixe" e que havia fugido da "cidade dos encantados". Tinha largado cinco filhos nas profundezas para criar. E tinha que voltar urgentemente para lá! Sempre deixava medicações para que ela tomasse e "desencantasse" (sic!). Ele mesmo dizia que era um "boto". Sempre lhe perguntava porque ela havia lhe traído. E ele não era, para ela, nada mais nada menos, do que mais um louco desconhecido. Achou que esse aí havia lido seu mestrado, para contar tantos absurdos. (Sua dissertação abordava esse tema).




Ao menos esse visitante tinha mais imaginação do que os outros. Devia ser algum tipo de estrangeiro que havia se encantado pelas lendas amazônicas, enfeitiçado, talvez, por tanto lendário. Espécie de torturador romântico.




Esse homem branco era aquele que costumava colocar-lhe chips que pulsavam em seu ventre, enquanto ela dormia, dando-lhe a impressão de que algo explodiria dentro dela, a qualquer momento, como uma bomba-relógio. Para esse problema, descobriu, usando a lógica, que bom era beber Coca-Cola. Esse refrigerante tinha elemento corrosivo que talvez corroesse essa tecnologia e gelado lhe refrescava nesse calor. E nem era muito amante desse refrigerante. Preferia guaraná Garoto. Mas, diante das circunstâncias...agora até compreendeu os escândalos que a outra fazia. Ouvira falar de seus surtos e dos quebras que promovia em bares noturnos. Devia estar reagindo a alguma situação semelhante...




(Agora o negócio era comigo. Que falta de sorte!)




Esse suposto marido e outros invadiam seu quarto, falavam-lhe no escuro (evidentemente não percebiam o engano, se não viam; tinham medo de acender a luz do quarto, por causa da câmera) e aplicavam-lhe testes absurdos em nome da polícia internacional - a Interpol. Baratas voadoras e formigas na cama, como também shampoos estragados e bananas que causavam sensação de sufocamento, entre outros efeitos alucinatórios - diziam - faziam parte do "teste". E eles às vezes eram aplicados por parentes e amigos, que queriam ver a desempregada sair daquele sufoco: "Era tão chique pertencer à Interpol!" - se confidenciavam entre si, deslumbrados. Na verdade - convenhamos - enganados em sua ingenuidade. A vítima não tinha formação policial, por isso nada disso lhe fazia sentido. Era apenas uma intelectual. Que horas que havia pedido tal teste? Quando havia autorizado pesquisas científicas em seu corpo?




Afirmavam também que iriam "estuporar" o seu útero. Outros diziam que não, pois "essa aí nem útero tem mais!". Mas ela até agora se perguntava o que era aquilo... não compreendia tais acontecimentos.




Outro discurso era que tais "pesquisas" era uma "experiência científica". As desculpas para a tortura, afinal, não conheciam limites. As ameaças de extermínio eram frequentes. Até já havia se acostumado e quanto mais ameaçavam mais ela criava. Pois conselho de todo filósofo é que diante da crise, sempre se crie. Ora, tudo pode ser uma ilusão, não? (piscadela cúmplice).




Criar para ela não era problema, (alguns que não tem imaginação nem formação ocupam-se apenas de roubar a produção de outros), suya imaginação jorra feito água - o líquido precioso que tem faltado em seu bairro.




Outra fala era que tudo isso acabaria. Segundo esses déspotas, se renunciasse ao seu Curriculum Vitae da plataforma Lattes, do CNPQ. Recusaria sempre tal proposta indecente. Visitavam-lhe com frequência para lhe perguntar se já havia "retrocedido". Ela respondia, convicta: "não. Jamais. Não vendo, não dou e não empresto meu curriculum!" Como reação ouvia: "então não retiro o chip".




Além disso, outra palavra muito utilizada era o particípio "desertado". O moço-Boto chegou a lhe dizer que ela havia "desertado" de sua vida de dama fácil, que atendia "vários clientes" nessa cidade: "tinha até uma lista para ela conhecer" (sic!).




O moço desconhecido se confundira de rosto, sem dúvida.




Ora, era pessoa muito honrada: tinha orgulho de sua história, adorava contá-la e recontá-la. Era muito narcisista e gostava de auto-incensar-se, em adoração de si. Por alguns, era tida por "malvada", apenas porque rejeitava propostas de corrupção e "se colocava". Coisas de professora, esse rigor - acreditava. Não via nenhum mal nisso.




O garoto dessa noite pretendia colocar-lhe uma mortalha, pois ela não havia "confessado". Mas, desistiu: parece que descobriu que ela não era a procurada. Até tinha religião considerada muito temida por mentes preconceituosas e completamente oposta à da mulher que conhecera biblicamente. Tão chocado ficou que teve que pular a janela quando o pai da moça acordou. E ele não era um Boto, sem dúvida.



Eu não vi, nem sei de nada, estive sonhando mas tenho a certeza. Foi tudo assim.








PS.: Isso tudo é ficção. Trata-se de uma idéia para um romance ou novela policial. Conto com contribuições dos leitores sempre tão vorazes e presentes...


(Que mentira esse PS!)



Quadros

Quadros


"(A tortura) é o meio mais seguro de absolver os criminosos robustos e condenar os fracos inocentes". (Cesare Beccaria)


Acontecimentos triviais, rotineiros: na segunda, um chip. Na terça, um chip; na quarta, um chip; na quinta, feira; na sexta, um chip - em lugares obtusos, nem imagine. No sábado, feira. No domingo, aflição. Revolta muda.
Nesse meio-tempo, estuda.
Para um amigo seu, é diferente:
Na segunda, um chopp; na terça, um chopp; na quarta, uma loura (visão do chopp); na quinta, também faz feira; na sexta, um chopp; no sábado, se alimenta
(de comida autêntica, da patroa)
Nesse meio-tempo ele goza.
Para ela, o corpo humano não é máquina. Protesta. Tem direito.
Para ele, não tem solução. Melhor beber,
 "porque se fosse sólido ele comeria*".