segunda-feira, 13 de julho de 2009

Política da mediocridade



"Há duas coisas a desejar da vida:

primeiro, conseguir o que você quer

e depois usufruir o que você tem.

Só os muito espertos conseguem a segunda. "



(L.P.Smith)



Acordou santa. Porque outra coisa não podia: tinham-lhe grampeado a vagina, para ver se talvez, cometeria alguma espécie de desatino. Quem sabe ela ligasse para alguém, vá saber - rastreariam. Antigamente se grampeavam telefones, hoje em dia, em tempos tecnológicos, se grampeiam as partes íntimas e se coloca GPS nas nádegas. Controle sufocante. Algum corno com trauma, talvez. Ou agentes secretos mal-informados. Ou isso ou aquilo, não sabia quem perseguia, afinal.


Diziam-se policiais, que investidos de plenos poderes, achavam-se no direito de entrar na casa de pobres cidadãos. As vezes iam armados para que os proprietários - acuados - abrissem a porta sem qualquer resmungo. Queriam falar com a "suspeita". Esta não sabia quem era quem. Suspeita de quê? E não é policial aquele que cuida da segurança do cidadão? E bandido é aquele que rouba e mata? Confusões conceituais.




Era sempre procurada por esses desconhecidos que, como argumento para a invasão, utilizavam-se de várias estratégias. Uma delas: de posse de certidões falsas de casamento, exigiam direitos de marido diante de um pai estupefato: "eu vim para fazer sexo..." Teria sua filha casado em segredo quando estivera longe? Confundiam sua mente. Sua filha era solteira e nunca tinha se casado, nem mesmo morado junto! "Também não era mulher da vida!" Era mais do que difícil. Mas ficava balançado de dúvidas. Sempre fora desconfiado.




Na verdade, o que faziam era testar (e destruir) a confiança entre os grupos e plantar a discórdia entre parentes e amigos. Inclusive muitos amigos haviam se separado por conta dessa "politicagem". Era preciso que se amassem de verdade e se conhecessem profundamente para vencerem tais artimanhas. E que, também, carecessem de ambições materiais. As pessoas se afastavam também com medo dessa guerra.




E que bizarro: eram vários maridos!




De madrugada, ao seu pé da cama, sempre lhe aparecia algum que lhe contava histórias absurdas, enquanto ela queria gritar e não conseguia, pois sempre dormia profundamente. Mas sabe que sonhou que reagia. Com socos e pontapés. Passou a xingar também.




Uma vez um deles fora lhe visitar. Não sabe como ele entrara. Dissera-lhe que ela já tinha dois filhos com ele, os dois moravam numa cidade do interior do Pará. O tal do homem com sotaque do interior não compreendia porque havia sido abandonado com duas crianças para criar. Enquanto que ela (não sei contar sua descrição, mas diziam que tinha pernas finas) fugira para São Paulo para dar um golpe em uma quase homônima.




Naqueles dias passados, nem pensara duas vezes: entre ficar com um marido que lhe batia e lutar para assumir o lugar de uma solitária doutoranda, optara pelo segundo lugar. (Mesmo que sequer tivesse qualificação para isso). Achou que seria fácil. Não podia imaginar que uma mulher que conquista o que quer - obviamente - tem apoio e forças para isso.




Dizem que a fugitiva golpista morrera atropelada. Nem sei dizer, é tudo hipótese. Ouvi falar.




Outro pretenso "marido" disse-lhe que ela era um "peixe" e que havia fugido da "cidade dos encantados". Tinha largado cinco filhos nas profundezas para criar. E tinha que voltar urgentemente para lá! Sempre deixava medicações para que ela tomasse e "desencantasse" (sic!). Ele mesmo dizia que era um "boto". Sempre lhe perguntava porque ela havia lhe traído. E ele não era, para ela, nada mais nada menos, do que mais um louco desconhecido. Achou que esse aí havia lido seu mestrado, para contar tantos absurdos. (Sua dissertação abordava esse tema).




Ao menos esse visitante tinha mais imaginação do que os outros. Devia ser algum tipo de estrangeiro que havia se encantado pelas lendas amazônicas, enfeitiçado, talvez, por tanto lendário. Espécie de torturador romântico.




Esse homem branco era aquele que costumava colocar-lhe chips que pulsavam em seu ventre, enquanto ela dormia, dando-lhe a impressão de que algo explodiria dentro dela, a qualquer momento, como uma bomba-relógio. Para esse problema, descobriu, usando a lógica, que bom era beber Coca-Cola. Esse refrigerante tinha elemento corrosivo que talvez corroesse essa tecnologia e gelado lhe refrescava nesse calor. E nem era muito amante desse refrigerante. Preferia guaraná Garoto. Mas, diante das circunstâncias...agora até compreendeu os escândalos que a outra fazia. Ouvira falar de seus surtos e dos quebras que promovia em bares noturnos. Devia estar reagindo a alguma situação semelhante...




(Agora o negócio era comigo. Que falta de sorte!)




Esse suposto marido e outros invadiam seu quarto, falavam-lhe no escuro (evidentemente não percebiam o engano, se não viam; tinham medo de acender a luz do quarto, por causa da câmera) e aplicavam-lhe testes absurdos em nome da polícia internacional - a Interpol. Baratas voadoras e formigas na cama, como também shampoos estragados e bananas que causavam sensação de sufocamento, entre outros efeitos alucinatórios - diziam - faziam parte do "teste". E eles às vezes eram aplicados por parentes e amigos, que queriam ver a desempregada sair daquele sufoco: "Era tão chique pertencer à Interpol!" - se confidenciavam entre si, deslumbrados. Na verdade - convenhamos - enganados em sua ingenuidade. A vítima não tinha formação policial, por isso nada disso lhe fazia sentido. Era apenas uma intelectual. Que horas que havia pedido tal teste? Quando havia autorizado pesquisas científicas em seu corpo?




Afirmavam também que iriam "estuporar" o seu útero. Outros diziam que não, pois "essa aí nem útero tem mais!". Mas ela até agora se perguntava o que era aquilo... não compreendia tais acontecimentos.




Outro discurso era que tais "pesquisas" era uma "experiência científica". As desculpas para a tortura, afinal, não conheciam limites. As ameaças de extermínio eram frequentes. Até já havia se acostumado e quanto mais ameaçavam mais ela criava. Pois conselho de todo filósofo é que diante da crise, sempre se crie. Ora, tudo pode ser uma ilusão, não? (piscadela cúmplice).




Criar para ela não era problema, (alguns que não tem imaginação nem formação ocupam-se apenas de roubar a produção de outros), suya imaginação jorra feito água - o líquido precioso que tem faltado em seu bairro.




Outra fala era que tudo isso acabaria. Segundo esses déspotas, se renunciasse ao seu Curriculum Vitae da plataforma Lattes, do CNPQ. Recusaria sempre tal proposta indecente. Visitavam-lhe com frequência para lhe perguntar se já havia "retrocedido". Ela respondia, convicta: "não. Jamais. Não vendo, não dou e não empresto meu curriculum!" Como reação ouvia: "então não retiro o chip".




Além disso, outra palavra muito utilizada era o particípio "desertado". O moço-Boto chegou a lhe dizer que ela havia "desertado" de sua vida de dama fácil, que atendia "vários clientes" nessa cidade: "tinha até uma lista para ela conhecer" (sic!).




O moço desconhecido se confundira de rosto, sem dúvida.




Ora, era pessoa muito honrada: tinha orgulho de sua história, adorava contá-la e recontá-la. Era muito narcisista e gostava de auto-incensar-se, em adoração de si. Por alguns, era tida por "malvada", apenas porque rejeitava propostas de corrupção e "se colocava". Coisas de professora, esse rigor - acreditava. Não via nenhum mal nisso.




O garoto dessa noite pretendia colocar-lhe uma mortalha, pois ela não havia "confessado". Mas, desistiu: parece que descobriu que ela não era a procurada. Até tinha religião considerada muito temida por mentes preconceituosas e completamente oposta à da mulher que conhecera biblicamente. Tão chocado ficou que teve que pular a janela quando o pai da moça acordou. E ele não era um Boto, sem dúvida.



Eu não vi, nem sei de nada, estive sonhando mas tenho a certeza. Foi tudo assim.








PS.: Isso tudo é ficção. Trata-se de uma idéia para um romance ou novela policial. Conto com contribuições dos leitores sempre tão vorazes e presentes...


(Que mentira esse PS!)



Quadros

Quadros


"(A tortura) é o meio mais seguro de absolver os criminosos robustos e condenar os fracos inocentes". (Cesare Beccaria)


Acontecimentos triviais, rotineiros: na segunda, um chip. Na terça, um chip; na quarta, um chip; na quinta, feira; na sexta, um chip - em lugares obtusos, nem imagine. No sábado, feira. No domingo, aflição. Revolta muda.
Nesse meio-tempo, estuda.
Para um amigo seu, é diferente:
Na segunda, um chopp; na terça, um chopp; na quarta, uma loura (visão do chopp); na quinta, também faz feira; na sexta, um chopp; no sábado, se alimenta
(de comida autêntica, da patroa)
Nesse meio-tempo ele goza.
Para ela, o corpo humano não é máquina. Protesta. Tem direito.
Para ele, não tem solução. Melhor beber,
 "porque se fosse sólido ele comeria*".

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Belém do Pará Aprazível


“O tempo tem tempo de tempo ser,
o tempo tem tempo de tempo dar,
ao tempo da noite que vai, correr,
o tempo do dia que vai chegar”

(Rui Barata)
Adoro minha cidade. Estou aqui pela primeira vez achando que permanecerei após o meu retorno em dez anos. Porque sempre tenho as malas prontas. A chuva que cai repentina é fascinante. Nem permite que o sol parta. Chuva com sol. Os passantes nem se importam e caminham na chuva. Nem dá tempo de abrir o guarda-chuva. É cidade-família. Ninguém quer se separar. Quando casam, avizinham-se para não se perderem as memórias. Tem energia peculiar. Linha do Equador. Tem gente que não acredita mas eu acredito. Nos renovamos. São os mistérios da Amazônia. De energia baixo-astral (me disse um amigo) só tem o "Igarapé das Almas". Também com esse nome... Eu nem quero saber aonde isso fica. Estou por aqui. (Sei lá, entende, mil coisas). As praias nesse mês prometem. Os múltiplos olhares daqui nem se comparam com os de lá. Cada lugar com seu conjugar. Aqui se conjugam tradições orais e conflitos atuais, é divertido ouvir as histórias paraenses. Espero também o Círio de Nazaré. Minha cidade tem açaizeiros, bacurizeiros, cupuaçu, pé disso e daquilo. Bacuri também é nome de gente. E é heresia misturar o açaí com granola.
Hoje não quero drama. O dia está muito bom.
De trágico só o meu bolso.





quarta-feira, 8 de julho de 2009

AGONIA:O.B.B.O

AGONIA
"A história é uma galeria de quadros
em que há poucos originais e muitas cópias."
(Charles A. de Tocqueville)

Continuemos. O sentimento do trágico ainda não havia lhe descolado da pele. Nem de nenhuma de suas profundas superfícies. Fora apenas um breve momento de felicidade. Ontem mesmo essa náusea, esse desconforto parecia ter partido de seu cotidiano. Ledo engano. Pensara até que estivesse livre. Por isso, sorria beatificamente. Olhava com bons olhos para todas as situações inusitadas. Abençoava tudo. Pisava leve. Festejava. Mas seus dias de paz logo se tornaram apenas projeto, sonho mesmo - na verdade, eram dias de luta. Felicidade abortada.
Naquela mesma noite, como um pesadelo, um estranho parecera invadir seu recinto. Era fétido, parecia nervoso. As glândulas, nesse caso, sempre produzem esse suor que nos dá calafrios. Péssimas emanações.
Assim, sem poder reagir (pois costumava dormir pesado) sentira que uma espécie de castigo lhe seria imposto. Espécie de O.B. mal colocado que lhe provocava sério desconforto e massacrava seu bom humor de todos os dias. Sonho recorrente. E como uma torneira que nunca pára de pingar, continuadamente, sem solução, tudo recomeçava. E as idas ao toalete no outro dia eram frequentes e inexplicáveis. Sem provas, ela se calava. Os cabelos também ardiam, teria sido algum excesso de amoníaco na fórmula gasta do shampoo? Mistério. Não sabia se o crime tinha cúmplices ou não. Também não sabia o motivo de tanto terrorismo. E quando relatava o pesadelo diziam-lhe, com toda certeza, que delirava. Mesmo assim, talvez ingenuamente, esperava alguma espécie de salvação. Ora, não podia mais tolerar ser tratada como um robô. Sem chips, era o que queria. Dispensava os testes: nunca os havia pedido. E lhe diziam também que via muita novela...aliás lhe diziam muitas coisas que não tinham sentido. Tudo bem, em sonho o psicodelismo é permitido.
(Cf. tela de Salvador Dali).
Maria era uma pessoa pacata. Uma pessoa. Tudo que desejava era usufruir do que tinha conquistado em sua trajetória acadêmica. Também amava sua costumeira liberdade de ir e vir. Era bem comum: não lhe achavam feia, mas seu capital acumulado sempre fora a cultura. Nunca a beleza, nem o ornamento. Levantava-se ao amanhecer e adormecia ao anoitecer. Nesse meio tempo, estudava. Nada demais. Seguia as leis como qualquer cidadã. Como muitos em seu país queria passar em um concurso público. Por isso organizava-se, lia, refletia, alimentava-se. Em outros tempos praticaria também algum esporte. Não agora. Tinha rotinas de esperanças típicas de quem espera por mudanças. Nunca se casara, nunca tivera filhos, tinha uma saúde de ferro e nenhuma cirurgia. Acreditava, como qualquer mulher, que um dia encontraria o seu Shrek, porque em negócio de príncipe não confiava. Para ela, o amor era questão de sorte, era uma romântica, porém, não ingênua. Olhava com desconfiança para os arranjos amorosos, mas tinha de admitir que em alguns casos, tratavam-se de encontros acertados. Ao menos, lhe parecia.
Em alguns pesadelos desses noturnos pediam-lhe que parasse de escrever. Mas era assim que respirava nesses dias de cofre vazio. (Pedido negado: mil desculpas).
E sendo assim, Maria pensava em transformar o O.B em B.O: em homenagem ao BOBO que lhe investira de tal coisa, lhe visitando - imaginariamente.
Et moi, narradora, não disse nada. Tudo isso é ficção. Eu nem escrevi isso. Não me comprometo jamais: "ah, foi uma amiga de infância..." E eu sou uma Ghost Writer! (sic!).
Você que acabou de me ler saia agora de sua sala e diga que não sabe e que nunca viu:
"qualquer coisa, fale com os meus advogados".

terça-feira, 7 de julho de 2009

Libertação

"Libertação". P.I.G.S., 2008.
Libertação
"Se assim foi, assim pôde ser; se assim fosse, assim poderia ser;
porém como não é, não é. Isso é lógica". Lewis Carroll.


Há momentos de sono da alma, em que, na verdade, o sonho e o tele transporte lhe salva, inclusive da dor. Quase não suportou. Nem sabe o que ocorreu. Poderia até ter cedido na opressão. Mas o que é seu, é seu e não deve se desculpar por isso. Nem muito menos ceder ao mal.


A verdade ressurge e deve ser o que permanece e ninguém acredita nela (sorte a sua). Porque:


A máscara mais segura para um esconderijo será sempre o que é mais evidente: a verdade. A nudez de uma revelação não convence, pois anda de sandálias. Do passado, ninguém se lembra, ninguém viu. Nem querem saber, vale o que se vê nas aparências e somente o capital. Vale o argumento do vil metal. Ouro de tolo.


A mentira saiu correndo, fugiu. Ilusões são voláteis. O que é forte permanece, como uma árvore centenária, incrustada na terra. Guarda, segura, sua posição.


É a Guardiã do portal. Fica lá, muda, secreta e inteira. São barrados todos os mal-intencionados. Os dias passam e ela permanece. Vem a noite e vem o dia, vem a aurora e o crepúsculo, e ela permanece. Até chove e faz sol, de repente. E ela não se desgasta porque está em si. Portadora de um pergaminho que lhe fora concedido em segredo. Em dias imemoriais. Mas ele só tem valor para quem é daquele mundo, outros não dão a mínima para tantos sussurros e palavras ditas ao ouvido. É Força para sempre. Embora vigilante e de olhos bem abertos, espera que agora tenha direito aos seus merecidos dias de tranquilidade e que ninguém mais ouse desafiá-la para duelos mortais.


Seria fatal.


segunda-feira, 6 de julho de 2009

Bastidores da criação.

"Mur de briques. Bibliothèque!"(Max Jacob)

Lent et douloureux. Escutei Satie. Lembrei-me:
Naqueles dias as horas corriam estéreis e havia a sensação de que o ar estava seco e o pulmão já não absorvia o ar. O que existia de concreto era a folha branca e seu vazio sombrio. Era preciso que o negro preenchesse a página. E lutava-se com isso.
Conservava-se o segredo, no entanto. Respeitava-se os limites.
Ora o texto escorria entre os seus dedos feito mergulhos n'água, ora escapavam e nada se fazia. Cumprir um tempo determinado era sempre a regra. Porque do tempo ninguém escapava. Éramos vistos como seres privilegiados e as cobranças eram inevitáveis. Éramos invejados sim, porque isso era de se prever numa sociedade de desiguais. Tratava-se de encarar o desafio, de cabeça erguida e sem perder la ternura jamais. Era também um desafio não perder a dignidade, diante dos testadores. Pois vez por outra, havia sempre alguém oferecendo portas abertas para a ruína com um sorriso acolhedor. Recusava esse abismo e essa depressão.
Havia uma reação: o corpo se contorcia numa recusa para a destruição. Pois sempre dissera "não" à corrupção.
Fora estudante pobre, sem recursos, almoçava sempre em restaurantes universitários, sempre fora de escola pública, e ficava sempre feliz com coisas poucas, como, por exemplo, quando alcançava a compreensão de um conceito. Atingia alta abstração. Sorria. O lugar comum também lhe agradava: coisas sem preço. Um conhecimento de valor incalculável.
Quando tudo travava sentia-se numa prisão: da cor, dos sentidos. Sua expressão era como respirar: obrigatória. A liberação só acontecia quando experienciava o movimento. Então no Tai-Chi se locomovia, libertavam-se as tintas pretas. Coroava-se de energias. Cobria-se de idéias. Nadava borboleta. Descansava os sentidos. Voltava para casa e debruçava-se no lençol da criação.
No nada do silêncio, naquele sobrado em que escrevia, percebia-se como uma consciência desperta.
E nunca estava só.



sexta-feira, 3 de julho de 2009

Surto

Surto
"Criar é desatar angústias".
Gaston Bachelard.
E foi como se ventasse, e gelasse os pés num dia de desabrigo, de desatino. Gelava o quarto. Entravam navalhas de frio. Diante da opressão: o grito. Para dentro, mudo, sem eco. Ecoou nas entranhas. Fez-se sangue.
Queriam que babasse, que seu cérebro explodisse em mil pedaços e, assim, o garoto pobre, porém inteligente, perderia o próprio rumo, ficaria somente só, interditado pela família, visto como louco por todos, para servir somente para um negócio: que lhe subtraíssem o sangue. E nem sabia porque. Acordava e via somente sombras no quarto. "Uma mente brilhante", diziam. Mas se era delírio a visita constante de um estranho, porque então as mãos formigavam e as veias ficavam doloridas? Como se o sangue dali fosse sempre extraído, jorrasse e tivesse sempre um cheiro de mistério.
Sonhava muito. Voava, combatia o mal, era Don Quixote lutando contra os ventos e expulsando as tempestades. Vários seus iguais voavam mais baixo que ele, a sensação de ir e vir era constante. Daqui a pouco também o céu ficaria congestionado. Mas delirava. Nem era homem... era um andrógino, sem sexo. Fechara os olhos: vinha outra onda. Enfrentaria essa e outra e outra.
O coração disparou assustado. Ao lado, também outra muda criatura. Mesmo em sua insensatez, lembrava-se dela: tinha olhos pretos, fortes e firmes. Figura franzina, o vestido sempre lhe escorria pelo corpo e ficava-lhe bem. Mas não era alta. Diziam que ela cantava em noites de insônia.
Ele, pelo menos, nunca viu.
Do cabelo, nada mais possuía, tinham-lhe arrancado tudo. Fora encontrada rastejante nas ruas e levada também para aquele lugar.
Ela gritou fundo tudo que podia. Berrou. Louca, sólida. Inconsequente. Arrancou-se-lhe toda a dor contida no centro de seu tórax. Desmaiou. Não sabia aonde estava.
O delírio veio-lhe como um presente: corria pelas ruas escuras, nua, feliz, e chovia. E era uma chuva de libertação. Dessas que somente caem em sua cidade. Curou-lhe todas as feridas. Sentiu-se amparada.
Mas era um engano. Tratava-se de um mal pago enfermeiro que pretendia prender-lhe à cama. Odiava-o. Ele lhe detinha a liberdade. Diante de uma negativa honesta, ele lhe aplicara um sedativo fatal. E então, angústia: o quarto girava. Não mais saía. Tudo trancado.
Estrela muda, escondida no fundo do barro.
Que há de criar-se, qualquer dia, não importa
. Sua cantoria calou-se. Era somente sonho. O moço ao lado (aquele dos olhos na testa ) vociferava: "mil impropérios, mil impropérios. Mais dois mil impropérios!!!".
(Moça fina de bom trato não pode reproduzir palavrão - dissera-lhe sua mãe. Por isso não conto isso aqui) . E o enfermeiro evaporou-se dentro do espelho. Era um mistério.
Então ela criou coragem. Fechou os olhos. Até estava crescendo... crescia, crescia, crescia. Pelo alto da cabeça, por debaixo dos pés, pelos lados e pelos altos. Já ia até se tornando um gigante até que. Algo se quebrara, devia ter sido um copo, algo assim.
Tudo real. Não havia nada lá fora. Sem mais delongas, resolveu que escreveria então. Outro dia criaria uma história, quem sabe. De acordo com os almanaques. Tudo como deve ser.
A escritura é sua e é secreta, dita em sussurros. Para não ser escutada e nem mesmo lida. Vomitou. Que lástima! O tempo...
E ninguém compreendeu.