quinta-feira, 9 de julho de 2009

Belém do Pará Aprazível


“O tempo tem tempo de tempo ser,
o tempo tem tempo de tempo dar,
ao tempo da noite que vai, correr,
o tempo do dia que vai chegar”

(Rui Barata)
Adoro minha cidade. Estou aqui pela primeira vez achando que permanecerei após o meu retorno em dez anos. Porque sempre tenho as malas prontas. A chuva que cai repentina é fascinante. Nem permite que o sol parta. Chuva com sol. Os passantes nem se importam e caminham na chuva. Nem dá tempo de abrir o guarda-chuva. É cidade-família. Ninguém quer se separar. Quando casam, avizinham-se para não se perderem as memórias. Tem energia peculiar. Linha do Equador. Tem gente que não acredita mas eu acredito. Nos renovamos. São os mistérios da Amazônia. De energia baixo-astral (me disse um amigo) só tem o "Igarapé das Almas". Também com esse nome... Eu nem quero saber aonde isso fica. Estou por aqui. (Sei lá, entende, mil coisas). As praias nesse mês prometem. Os múltiplos olhares daqui nem se comparam com os de lá. Cada lugar com seu conjugar. Aqui se conjugam tradições orais e conflitos atuais, é divertido ouvir as histórias paraenses. Espero também o Círio de Nazaré. Minha cidade tem açaizeiros, bacurizeiros, cupuaçu, pé disso e daquilo. Bacuri também é nome de gente. E é heresia misturar o açaí com granola.
Hoje não quero drama. O dia está muito bom.
De trágico só o meu bolso.





quarta-feira, 8 de julho de 2009

AGONIA:O.B.B.O

AGONIA
"A história é uma galeria de quadros
em que há poucos originais e muitas cópias."
(Charles A. de Tocqueville)

Continuemos. O sentimento do trágico ainda não havia lhe descolado da pele. Nem de nenhuma de suas profundas superfícies. Fora apenas um breve momento de felicidade. Ontem mesmo essa náusea, esse desconforto parecia ter partido de seu cotidiano. Ledo engano. Pensara até que estivesse livre. Por isso, sorria beatificamente. Olhava com bons olhos para todas as situações inusitadas. Abençoava tudo. Pisava leve. Festejava. Mas seus dias de paz logo se tornaram apenas projeto, sonho mesmo - na verdade, eram dias de luta. Felicidade abortada.
Naquela mesma noite, como um pesadelo, um estranho parecera invadir seu recinto. Era fétido, parecia nervoso. As glândulas, nesse caso, sempre produzem esse suor que nos dá calafrios. Péssimas emanações.
Assim, sem poder reagir (pois costumava dormir pesado) sentira que uma espécie de castigo lhe seria imposto. Espécie de O.B. mal colocado que lhe provocava sério desconforto e massacrava seu bom humor de todos os dias. Sonho recorrente. E como uma torneira que nunca pára de pingar, continuadamente, sem solução, tudo recomeçava. E as idas ao toalete no outro dia eram frequentes e inexplicáveis. Sem provas, ela se calava. Os cabelos também ardiam, teria sido algum excesso de amoníaco na fórmula gasta do shampoo? Mistério. Não sabia se o crime tinha cúmplices ou não. Também não sabia o motivo de tanto terrorismo. E quando relatava o pesadelo diziam-lhe, com toda certeza, que delirava. Mesmo assim, talvez ingenuamente, esperava alguma espécie de salvação. Ora, não podia mais tolerar ser tratada como um robô. Sem chips, era o que queria. Dispensava os testes: nunca os havia pedido. E lhe diziam também que via muita novela...aliás lhe diziam muitas coisas que não tinham sentido. Tudo bem, em sonho o psicodelismo é permitido.
(Cf. tela de Salvador Dali).
Maria era uma pessoa pacata. Uma pessoa. Tudo que desejava era usufruir do que tinha conquistado em sua trajetória acadêmica. Também amava sua costumeira liberdade de ir e vir. Era bem comum: não lhe achavam feia, mas seu capital acumulado sempre fora a cultura. Nunca a beleza, nem o ornamento. Levantava-se ao amanhecer e adormecia ao anoitecer. Nesse meio tempo, estudava. Nada demais. Seguia as leis como qualquer cidadã. Como muitos em seu país queria passar em um concurso público. Por isso organizava-se, lia, refletia, alimentava-se. Em outros tempos praticaria também algum esporte. Não agora. Tinha rotinas de esperanças típicas de quem espera por mudanças. Nunca se casara, nunca tivera filhos, tinha uma saúde de ferro e nenhuma cirurgia. Acreditava, como qualquer mulher, que um dia encontraria o seu Shrek, porque em negócio de príncipe não confiava. Para ela, o amor era questão de sorte, era uma romântica, porém, não ingênua. Olhava com desconfiança para os arranjos amorosos, mas tinha de admitir que em alguns casos, tratavam-se de encontros acertados. Ao menos, lhe parecia.
Em alguns pesadelos desses noturnos pediam-lhe que parasse de escrever. Mas era assim que respirava nesses dias de cofre vazio. (Pedido negado: mil desculpas).
E sendo assim, Maria pensava em transformar o O.B em B.O: em homenagem ao BOBO que lhe investira de tal coisa, lhe visitando - imaginariamente.
Et moi, narradora, não disse nada. Tudo isso é ficção. Eu nem escrevi isso. Não me comprometo jamais: "ah, foi uma amiga de infância..." E eu sou uma Ghost Writer! (sic!).
Você que acabou de me ler saia agora de sua sala e diga que não sabe e que nunca viu:
"qualquer coisa, fale com os meus advogados".

terça-feira, 7 de julho de 2009

Libertação

"Libertação". P.I.G.S., 2008.
Libertação
"Se assim foi, assim pôde ser; se assim fosse, assim poderia ser;
porém como não é, não é. Isso é lógica". Lewis Carroll.


Há momentos de sono da alma, em que, na verdade, o sonho e o tele transporte lhe salva, inclusive da dor. Quase não suportou. Nem sabe o que ocorreu. Poderia até ter cedido na opressão. Mas o que é seu, é seu e não deve se desculpar por isso. Nem muito menos ceder ao mal.


A verdade ressurge e deve ser o que permanece e ninguém acredita nela (sorte a sua). Porque:


A máscara mais segura para um esconderijo será sempre o que é mais evidente: a verdade. A nudez de uma revelação não convence, pois anda de sandálias. Do passado, ninguém se lembra, ninguém viu. Nem querem saber, vale o que se vê nas aparências e somente o capital. Vale o argumento do vil metal. Ouro de tolo.


A mentira saiu correndo, fugiu. Ilusões são voláteis. O que é forte permanece, como uma árvore centenária, incrustada na terra. Guarda, segura, sua posição.


É a Guardiã do portal. Fica lá, muda, secreta e inteira. São barrados todos os mal-intencionados. Os dias passam e ela permanece. Vem a noite e vem o dia, vem a aurora e o crepúsculo, e ela permanece. Até chove e faz sol, de repente. E ela não se desgasta porque está em si. Portadora de um pergaminho que lhe fora concedido em segredo. Em dias imemoriais. Mas ele só tem valor para quem é daquele mundo, outros não dão a mínima para tantos sussurros e palavras ditas ao ouvido. É Força para sempre. Embora vigilante e de olhos bem abertos, espera que agora tenha direito aos seus merecidos dias de tranquilidade e que ninguém mais ouse desafiá-la para duelos mortais.


Seria fatal.


segunda-feira, 6 de julho de 2009

Bastidores da criação.

"Mur de briques. Bibliothèque!"(Max Jacob)

Lent et douloureux. Escutei Satie. Lembrei-me:
Naqueles dias as horas corriam estéreis e havia a sensação de que o ar estava seco e o pulmão já não absorvia o ar. O que existia de concreto era a folha branca e seu vazio sombrio. Era preciso que o negro preenchesse a página. E lutava-se com isso.
Conservava-se o segredo, no entanto. Respeitava-se os limites.
Ora o texto escorria entre os seus dedos feito mergulhos n'água, ora escapavam e nada se fazia. Cumprir um tempo determinado era sempre a regra. Porque do tempo ninguém escapava. Éramos vistos como seres privilegiados e as cobranças eram inevitáveis. Éramos invejados sim, porque isso era de se prever numa sociedade de desiguais. Tratava-se de encarar o desafio, de cabeça erguida e sem perder la ternura jamais. Era também um desafio não perder a dignidade, diante dos testadores. Pois vez por outra, havia sempre alguém oferecendo portas abertas para a ruína com um sorriso acolhedor. Recusava esse abismo e essa depressão.
Havia uma reação: o corpo se contorcia numa recusa para a destruição. Pois sempre dissera "não" à corrupção.
Fora estudante pobre, sem recursos, almoçava sempre em restaurantes universitários, sempre fora de escola pública, e ficava sempre feliz com coisas poucas, como, por exemplo, quando alcançava a compreensão de um conceito. Atingia alta abstração. Sorria. O lugar comum também lhe agradava: coisas sem preço. Um conhecimento de valor incalculável.
Quando tudo travava sentia-se numa prisão: da cor, dos sentidos. Sua expressão era como respirar: obrigatória. A liberação só acontecia quando experienciava o movimento. Então no Tai-Chi se locomovia, libertavam-se as tintas pretas. Coroava-se de energias. Cobria-se de idéias. Nadava borboleta. Descansava os sentidos. Voltava para casa e debruçava-se no lençol da criação.
No nada do silêncio, naquele sobrado em que escrevia, percebia-se como uma consciência desperta.
E nunca estava só.



sexta-feira, 3 de julho de 2009

Surto

Surto
"Criar é desatar angústias".
Gaston Bachelard.
E foi como se ventasse, e gelasse os pés num dia de desabrigo, de desatino. Gelava o quarto. Entravam navalhas de frio. Diante da opressão: o grito. Para dentro, mudo, sem eco. Ecoou nas entranhas. Fez-se sangue.
Queriam que babasse, que seu cérebro explodisse em mil pedaços e, assim, o garoto pobre, porém inteligente, perderia o próprio rumo, ficaria somente só, interditado pela família, visto como louco por todos, para servir somente para um negócio: que lhe subtraíssem o sangue. E nem sabia porque. Acordava e via somente sombras no quarto. "Uma mente brilhante", diziam. Mas se era delírio a visita constante de um estranho, porque então as mãos formigavam e as veias ficavam doloridas? Como se o sangue dali fosse sempre extraído, jorrasse e tivesse sempre um cheiro de mistério.
Sonhava muito. Voava, combatia o mal, era Don Quixote lutando contra os ventos e expulsando as tempestades. Vários seus iguais voavam mais baixo que ele, a sensação de ir e vir era constante. Daqui a pouco também o céu ficaria congestionado. Mas delirava. Nem era homem... era um andrógino, sem sexo. Fechara os olhos: vinha outra onda. Enfrentaria essa e outra e outra.
O coração disparou assustado. Ao lado, também outra muda criatura. Mesmo em sua insensatez, lembrava-se dela: tinha olhos pretos, fortes e firmes. Figura franzina, o vestido sempre lhe escorria pelo corpo e ficava-lhe bem. Mas não era alta. Diziam que ela cantava em noites de insônia.
Ele, pelo menos, nunca viu.
Do cabelo, nada mais possuía, tinham-lhe arrancado tudo. Fora encontrada rastejante nas ruas e levada também para aquele lugar.
Ela gritou fundo tudo que podia. Berrou. Louca, sólida. Inconsequente. Arrancou-se-lhe toda a dor contida no centro de seu tórax. Desmaiou. Não sabia aonde estava.
O delírio veio-lhe como um presente: corria pelas ruas escuras, nua, feliz, e chovia. E era uma chuva de libertação. Dessas que somente caem em sua cidade. Curou-lhe todas as feridas. Sentiu-se amparada.
Mas era um engano. Tratava-se de um mal pago enfermeiro que pretendia prender-lhe à cama. Odiava-o. Ele lhe detinha a liberdade. Diante de uma negativa honesta, ele lhe aplicara um sedativo fatal. E então, angústia: o quarto girava. Não mais saía. Tudo trancado.
Estrela muda, escondida no fundo do barro.
Que há de criar-se, qualquer dia, não importa
. Sua cantoria calou-se. Era somente sonho. O moço ao lado (aquele dos olhos na testa ) vociferava: "mil impropérios, mil impropérios. Mais dois mil impropérios!!!".
(Moça fina de bom trato não pode reproduzir palavrão - dissera-lhe sua mãe. Por isso não conto isso aqui) . E o enfermeiro evaporou-se dentro do espelho. Era um mistério.
Então ela criou coragem. Fechou os olhos. Até estava crescendo... crescia, crescia, crescia. Pelo alto da cabeça, por debaixo dos pés, pelos lados e pelos altos. Já ia até se tornando um gigante até que. Algo se quebrara, devia ter sido um copo, algo assim.
Tudo real. Não havia nada lá fora. Sem mais delongas, resolveu que escreveria então. Outro dia criaria uma história, quem sabe. De acordo com os almanaques. Tudo como deve ser.
A escritura é sua e é secreta, dita em sussurros. Para não ser escutada e nem mesmo lida. Vomitou. Que lástima! O tempo...
E ninguém compreendeu.



terça-feira, 19 de maio de 2009

De Entrelaços e Desencontros

P.I.G.S. "Eclipse". 2009.


"Pero mis ojos se mueren sin mirar tus ojos"


(cantado por Chavela Vargas)



Uns olhos são minha casa. Apesar da mistura de ternura e ódio neles contido. A intensidade deles me impressiona, me devora e me conquista. Uma força única. Outro é o avesso, nem sei.


Assisto ao espetáculo. Mas também estou nele. Sou espectadora e também personagem. Presente e ausente. Ele se surpreende com algo inexplicável.


Em outra hora, ele grita com alguém que desconheço. A teia foi urdida. Estou nela e apenas por acidente. Sim, estou naquele lugar por um acidente, por informações desencontradas. Mas o engano nos aproxima e nem lamento. Sorrio. Ignoro as falas desconexas e sem sentido. Não surtem efeito sobre mim.


Parto e retorno. Não suporto não entender. Depois é você que tem uma nova chance. Você volta e luta por justiça. Mas é você mesmo? O azul pode ser o mar, a paz, mas também o infinito ou também uma tempestade, os ventos bravios que acidentam as embarcações. Repouso em azul. Deito-me nas águas e contemplo o céu.




Mas esse céu de repente muda de cor. Então vejo outros olhos. Esses são apagados e se revelam sem rumo, sem sentido e quase sem luz: ele se vê torturado pelo ciúme. Quer punir a mim, mas eu não me vejo naquele enredo. Intrigas, sempre a perversidade alheia. Digo-lhe que foi apenas um vinho e nada mais. Outro lhe sussurra ao ouvido que não; e conta-lhe uma história repleta de bebidas, luares, prazeres. Ele acredita. E então sua intensidade azul se torna rubra - dá-me as costas.


Afundo em alto-mar, ondas me tragam. Sou sugada ao fundo.


São outros esses olhos? Da crueldade, da ruína, da destruição? O azul se torna cinza.


Confusão: a inimiga da felicidade. E multiplicam-se as falas, os gestos. Ecoam nos ouvidos as artimanhas. Os discursos: "fui eu que...". As identidades: "ah, sim, sou eu!"; "não sou eu quem sai às ruas..."; "sou eu a verdadeira..."... Personagens se multiplicam. Fico confusa. Quem é quem? O mal pode ser o bem e o bem, o mal.


Dói nos ossos a separação.


O cheio se esvazia. A onda vem, a onda vai. Nem a dualidade traduz explicação. Vivemos deslocados. Sem guarida.


A profundidade não é má. Saio dela energizada. Subo dourada pelas pedras. E nada acontecera. Foi só um dia de verão, quando o azul se tornou cinza. Caía a tarde.


E eu não te perdi. Meu amor foi buscar a sua razão como um porto.


E você não se afogou.



quinta-feira, 7 de maio de 2009

Espadas



Espadas


"Les vivants sont donc morts et perdus dans les ordures de la vie"(Anônimo)


Caminho em ruas desérticas e sem asfalto. Percebo vários buracos. Em torno deles os passantes passam. Nas esquinas, os cães ladram mesmo sem qualquer barulho. Olhos se perdem, desertam e desistem... e vários já partiram. Vejo e olho as fendas no solo cinza. Há escrituras de histórias às vezes apenas iniciadas.
Noto o abandono das lutas pessoais desprezadas, esquecidas, quase travadas e inconclusas.
Muitos já esqueceram até de seus próprios nomes.

Há espadas. Há espadas sempre nesse caminho, de madeira, de latão, de ouro, jogadas fora, abandonadas...

Mas eram as espadas de cada um, e cada um tinha a sua, diferente, de história diferente, de enredo e de obstáculos diferentes. Há luz e sol para todos.

A cada um o seu lugar - é o que digo sempre.

Ocupar o lugar de outro pode ferir a própria alma: ela tem seu próprio enredo e cor.
Lamento muito os enredos des-tecidos.
Abandonaram seus sonhos. As conquistas que teriam. As alegrias de conseguir realizar cada sonho.

E foram vagar pela vida...como zumbis no asfalto.
Ser mais um.
Chamados tinham sido. E poderiam ter contribuído para a obra. Mas acharam que se tratava de uma busca sem sentido e que era tudo desvario.

Partiram.
Então me encontro só e ainda acredito e ainda aposto em todos os meus calafrios, desatinos e sussurros astrais.
E ainda pergunto para eles: "posso pegar? vocês jogaram fora!" - Só por provocação (porque jamais eu pegaria o que não me pertence) e já nem me respondem... não há mais força. Não há sequer vontade de dar qualquer justificativa. Fico admirando a beleza das espadas, tudo aquilo - mesmo num deserto - tem beleza.

E com a minha vou seguindo minha estrada. Em solitude.